Cocós & Contras - RTP
Há quase 4 décadas que deixei Portugal e naturalmente cada vez que visito o meu país tenho cada vez mais dificuldade em reconhecê-lo. Não, não me refiro a alterações de ordem estética, mas da sua fibra moral. Como quase sempre, as coisas em Portugal passam do oito ao oitenta. Se então tínhamos um povo pobre, mas humilde e honesto, hoje em contrapartida temos um povo arrogante, mal educado... mas que continua pobre. Mas dois aspectos parecem inalterados de então para cá: a corrupção e a vontade de combatê-la.
O flagelo que era a corrupção dos tempos não-mediáticos do Estado Novo, continua agora também a ser o maior cancro da sociedade portuguesa pós-25 de Abril, só que agora, com a mediatização da sociedade, o problema é ainda mais aparente, ainda que os políticos e outros "poderosos" alimentem e se alimentem da mesma e desavergonhadamente continuem a falar do "estado de direito" (?), da "justiça" (?) e da "democracia" (?).
Mas que ousadia e desaforo!
O que é triste e preocupante é que o português em geral vê a corrupção como que uma mera rivalidade entre equipas de futebol, a exemplo de um Benfica/Porto, mas transportada para a arena política onde os partidos políticos vão ouvindo as diversas acusações mas continuam a assobiar para o lado a já "eterna melodia" - ♫ cá vamos cantando e rindo..♫ - mudando apenas um pouco a música para "inglês vêr" e português ouvir.
Infelizmente para o português, o problema reside no facto de que quando o seu clube perde ou ganha o desalento ou a euforia depressa se esvanessem, enquanto que com a corrupção desenfreada, envolvendo centenas de milhões de €uros de dinheiros públicos, é esse mesmo portuguesito "futebolista... e eleitor!" que vái sofrer na pele os efeitos desta pilhagem que o vái afectar para o resto da sua vida.
Se alguém tem dúvidas do pântano em que se transformou Portugal, basta ser neutro e observar à distância o esforço que o governo faz para evitar medidas sérias (ou quaisquer outras) de combate a corrupção, indo mesmo ao ponto de praticamente "desterrar" um dos seus membros quando este (Dr. João Cravinho) ousou lançar um repto ao seu próprio partido sobre o assunto. E eu pergunto? Onde estão os intelectuais portugueses? (Aqueles que não foram "escolhidos" para uma empresa do Estado....)
Tudo isto vem a propósito do último programa Prós e Contras na RTP. Nesse programa (23Nov09), foi incrível observar como estão bem demarcadas as duas posições opostas sobre a corrupção. De um lado, o Prof. Paulo Pinto de Albuquerque e o Juiz Desembargador Ricardo Cardoso; na bancada oposta, o Prof. Germano Marques da Silva e o eloquente "zé metralha" Dr. Marinho Pinto.
Enquanto era evidente ao observador neutro que os dois primeiros procuravam demonstrar que o José Sócrates (com uma já longa história de não-verdades e um curriculum duvidoso) e o seu fiel partido, não olham a meios para conseguir os seus fins de dominação, controlo e submissão de qualquer oposição, os oradores da bancada oposta não se cansaram de repetir os habituáis slogans de "inocência até julgamento em contrário".
É claro que ao "zé pateta" em geral e àqueles afectos ao partido do governo em particular, tudo isto soa muito bem. O problema é que em Portugal os "cabeças de cartaz" da corrupção (ou da pedofilia!) nem sequer chegam ao tribunal! Por isso podem abrir milhares de processos, gravar milhares de escutas..... que o único recipiente desta justiça "à portuguesa" continuará a ser o "Tótó-pilha-galinhas", pois agora até mesmo o assassino mais cruel pode ir para casa, depois de mostrar o "cartão de contribuinte" ou coisa semelhante, na esquadra da polícia mais próxima.
Por um Portugal ainda maior.....em episódios surrealistas e desonestos!
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